No episódio 39 do O GritoCast, fui provocado a enfrentar uma pergunta espinhosa: afinal, Cuba é uma democracia ou uma ditadura? A questão, que muitos tratam como simples, é tudo menos isso. E foi justamente a partir dessa provocação que eu ampliei o debate para algo ainda mais desconfortável: o que nós estamos chamando de democracia hoje?
Minha posição é clara — e sei que incomoda alguns. Cuba está na mesma prateleira das democracias liberais ocidentais. A diferença brutal é que o modelo cubano nasce de um processo revolucionário popular, enquanto o modelo dominante no Ocidente foi moldado historicamente por elites econômicas e oligarquias que nunca largaram completamente o controle do jogo político. Nos Estados Unidos, na Europa e, por reflexo, na América Latina, a democracia liberal se consolidou como pacto de estabilidade do capital. Em Cuba, ela surge de ruptura.
Mas o ponto que mais me interessa hoje não é apenas comparar modelos institucionais. É entender como a democracia contemporânea vem sendo transformada por algo muito mais sutil — e, talvez, muito mais perigoso: o algoritmo.
Nós ainda repetimos que vivemos na “era da liberdade de expressão”. Mas sejamos honestos: liberdade para quem? E mediada por quem? A esfera pública que antes se organizava em torno de debate, confronto de ideias e argumentação foi absorvida por plataformas digitais que operam por lógica de engajamento, predileção e modulação de comportamento. Não se trata mais de convencer; trata-se de prever e induzir.
O voto virou dado.
O cidadão virou perfil.
A liberdade virou métrica de performance.
E aqui entra uma ironia histórica interessante. Tomemos o exemplo da democracia estadunidense. Lá, existe um sistema cheio de filtros institucionais — colégio eleitoral, distribuição desigual de delegados, regras estaduais específicas — que faz com que nem sempre quem recebe mais votos populares seja o vencedor. Já vimos isso acontecer mais de uma vez. No berço do liberalismo político moderno, o voto direto não é soberano.
Isso por si só já desmonta a narrativa de pureza democrática. O modelo estadunidense, que sempre se vendeu como exportador de democracia, agora exporta também uma nova forma de controle político: a curadoria algorítmica da realidade. As mesmas empresas de tecnologia que moldam a opinião pública interna expandem
globalmente uma dinâmica em que a liberdade de escolha é progressivamente sequestrada pela lógica da recomendação automática.
Você acha que escolhe o que vê.
Mas, na prática, você vê o que foi escolhido para você.
E não estou falando de censura clássica, aquela do Estado proibindo jornais ou prendendo opositores. Estou falando de algo mais sofisticado: invisibilização. O que não aparece no seu feed praticamente não existe. O algoritmo não precisa calar ninguém; basta reduzir o alcance. É uma forma elegante e educada...de controle.
Vivemos sob uma democracia da visibilidade. O que circula é o que conta. O que engaja é o que sobe. E o que gera indignação, medo ou raiva performa melhor do que qualquer argumento racional. A mentira, nesse ambiente, não é um erro do sistema — é combustível. Ela mantém o fluxo. E fluxo é mercadoria. Então é lucro.
A crise democrática, portanto, não é apenas institucional. É cognitiva. É afetiva. É estrutural. A política deixou de ser o seu espaço pensado historicamente e virou arena de estímulos emocionais. Mas tudo calculado. Não é necessário calar ninguém. Apenas torna la invisível.
E aqui faço uma provocação: quando acusam Cuba de não ser democrática, com base exclusiva no seu modelo partidário ou em sua estrutura política, raramente aplicam o mesmo rigor analítico às democracias liberais capturadas pelo capital financeiro e, agora, pelo capital informacional. Se democracia pressupõe autodeterminação dos povos, precisamos perguntar com honestidade: quem realmente governa quando algoritmos privados organizam a percepção coletiva?
Defender liberdade de expressão hoje não pode significar ingenuidade tecnológica. Se quisermos preservar qualquer sentido real de democracia — seja em Cuba, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar — precisamos encarar o fato de que o campo decisivo da política migrou para as infraestruturas digitais. Código é poder. Arquitetura informacional é arquitetura política.
Não se trata de nostalgia de uma esfera pública idealizada que talvez nunca tenha existido plenamente. Trata-se de estabelecer mecanismos de auditabilidade, transparência e controle democrático sobre as tecnologias que organizam nossa percepção do mundo.
Precisamos formar cidadãos capazes de compreender como funcionam os sistemas que moldam suas escolhas. Precisamos de cooperação internacional séria sobre direitos digitais. Precisamos, sobretudo, devolver à política a capacidade de submeter a técnica à ética — e não o contrário.
Quando a política vira cálculo, o ser humano corre o risco de virar variável descartável. Mas ainda há um espaço de resistência: o intervalo entre o estímulo e a resposta. É ali que mora a liberdade. É ali que decidimos se seremos conduzidos pelo algoritmo ou se vamos, finalmente, compreendê-lo — e regulá-lo.
No fim das contas, a pergunta sobre Cuba acabou revelando algo maior: talvez o problema não seja apenas quem chamamos de ditadura, mas o que estamos aceitando como democracia.
-----------------------------------------------
SOBRE O AUTOR(A)
Luiz Gustavo Saboya de Castro Mota é advogado, Mestre em Tecnologia, Ambiente e Sociedade na sublinha de Filosofia e ética pela UFVJM Campus do Mucuri. Membro Julgador do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-MG. Pesquisador na área da Crítica e aperfeiçoamento do Direito. @eugustavodecastro
-----------------------------------------------

0 Comentários
Agradecemos pelo comentário. Compartilhe nossos conteúdos com seus amigos e conhecidos.